Thursday, February 12, 2009
Perfil

Nunca escolhi o jornalismo. Foi algo que aconteceu naturalmente, como o nascimento, as viagens e os namorados. O resto é coincidência.

 

Foi pelas andanças da vida, aquelas que todos fazem, que percebi o privilégio de perceber coisas menos óbvias e mais divertidas, curiosas, auspiciosas. As verdadeiras revoluções acontecem silenciosamente, ouvi dizer. Preciso registrar isso, preciso contar isso. Preciso ensinar, de maneira menos embaraçante ou dolorida aquilo que vi e aprendi. Na verdade, a ambição era ser professor. Mas a formalidade estagnada das escolas não me apeteceu.

 

É incrível o quanto as pessoas não contam na primeira instância. As histórias mais fascinantes costumam estar latentes, e passam sem registro. Para um ateu, isto sim é heresia. Se o ser humano está acima de tudo – leia-se o homem como projeto em desenvolvimento, não soberano sobre tudo –, não nos compete permitir que se esqueçam os pequenos triunfos ou, tampouco, repitam os erros.

 

Lembro-me da vez que perdi meu avô. Doeu. Não chorei durante o velório, por mais que houvéssemos um quê especial que nos fora concedido pela afinidade e convívio. Era gaúcho, e não do tipo idealizado por Veríssimo. Era o tipo turrão, mais teimoso que eu. Mas era também um homem apaixonado por seus 30 hectares de campo torrado e sujo. Morreu como quis: um ataque fulminante, desencilhando o cavalo após mais uma campereada. Era o meu cavalo. Era o meu padrinho. Era o último ponto estável da minha vida.

 

Não tenho mais cavalo, nem as vacas leiteiras, nem as ovelhas que eu, desde criança, assistia 'pendurar'. Eu era a menina que tocava o rebanho, lavava as facas e as mãos do velho. Hoje, não mais fujo de zorrilho (que, para quem não sabe, é gambá), não procuro as caturritas, as viuvinhas, o sangue-de-boi ou os joãos-de-barro em suas orneiras. Não me cabe mais.

 

O que me doeu foi esta falta. Saber que ninguém, se não eu, está aqui para contar que existem, ainda, pessoas no sul do Brasil que utilizam a bombacha para trabalhar. Dizer que as prendas não utilizam vestido de saia rodada, que há lugares nos quais a energia elétrica ainda não chegou e que, talvez, assim o seja porque os moradores de tal região não a queiram. Me resta, apenas, relatar tais fatos para que não passem em branco pois, lhes asseguro, em pouquíssimo tais não existirão mais.


Postado em 08:06 am
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